Marisa Orth ao lado de Falabella em O que o mordomo viu

Extraído de: jconline.ne10.uol.cultura   Fevereiro 14, 2014

Atriz conta como conseguiu pegar o papel em menos de um mês

Depois que a colega Arlete Sales foi surpreendida com um tumor às vésperas da estreia, em Niteroi, ano passado, Marisa Orth precisou  se integrar à O que o mordomo viu, ao lado do também diretor Miguel Falabella, em menos de um mês. “Com ensaios de oito horas por dia, e 30 anos de carreira, consegui”, diz ela, rindo, sobre a peça do inglês Joe Orton que ela apresenta, de hoje a domingo, no novo Teatro Rio Mar. A peça é uma comédia de costumes ácida, “punk”. “O texto é grande motivo para ver a peça, além da nossa união no palco. Não sei até quando fico no papel... Recife vai ver comigo”, diz ela, nessa entrevista a Bruno Albertim em que, entre outras coisas, fala também da generalização do brega no Brasil.

JC – Como você conseguiu pegar o papel em tão pouco tempo?MARISA ORTH - Entrei no elenco há um mês. Me interei da peça num momento de crise. As notícias foram piores que as esperadas (com Arlete), para ver se ela ia ter que tratar ou não o tumor. Não era seu momento de fazer uma temporada de viagens. Com oito horas de ensaio por dia, e trinta anos de carreira, a gente consegue. Mas é tenso. Ainda pego texto nas coxias, com os colegas. Vou pras cidades, e não curto as cidades. Fico estudando.

JC – Você já conhecia a dramaturgia do Joe Orton?
MARISA
- Não conhecia, mas estou apaixonada. Era uma falha grave. Já quero conhecer o resto, ver O Olho Azul da falecida. Estou pesquisando, estudando. O texto é um grande motivo para ver a peça, além da nossa união, do Miguel e da Marisa no palco. Não sei até quando fico no papel, ele é da Arlete. Recife vai ver comigo. A peça é ótima. Não tenho mais idade para ter falsa modéstia. É um vaudeville aparentemente convencional. Mas é muito doido. Tudo fica em dúvida: você é incestuoso ou não, homem ou não, homosexual ou não. É engraçado, porque o formato é de uma peça aparentemente leve, mas é punk. Dá para entender como é que o punk nasceu na Inglaterra, porque ele fala barbaridades com uma leveza, uma desenvoltura.

JC - Falabella é meio Almodóvar: adora trabalhar com a mesma turma. Vocês se conhecem há muito tempo, o que é fazer parte dessa turma?
MARISA –
Na minha idade, eu tenho a ilusão de fazer parte de várias turmas e não fazer parte de turma nenhuma. Mas gosto de fazer parte também da turma dele, sou muito da turma da Arlete, que é uma comediante absurda, Miguel é fã dela. O Miguel é uma usina. Ele é um leitor compulsivo, vive apontando as falhas no nosso currículo. Há 23 anos, ele descobriu que eu não tinha lido Trumam Capote e me mandou ler. Agora, me apresentou ao Orton. Ele é generoso, expansivo, elétrico, e me respeita bastante. Tem um exercício de esgrima em cena permanente. Se a gente não acerta a tom da frade, perde a piada. Aliás, o Marcelo Picchi tá dando um show.

JC – É um texto do final dos anos 1960, que já foi montado diversas vezes em Londres e também no Brasil. O que essa montagem acrescenta?
MARISA –
O texto tá ágil, tá editado. Na versão londrina, tem uma série de brincadeiras com Churchil e seu charuto. Hoje em dia, nos dirigimos a um público que nem sabe quem foi Churchill, nem sabe que ele fumava charuto. O texto discute as aparência. É um apeça de um temnpo em que o teatro podia ser politicamente incorreto. Desde a contracultura, só vi o teatro ficar mais medroso, mais careta. Então, Miguel insere também algumas piadinhas contemporâneas. Há também a trilha dos anos sessenta. Foi uma época de jorro. Joe Orton foi um heroi de levantar a bandeira homossexual naquele tempo. Estou feliz em fazer e por estar abrindo com ele um teatro no Recife.


JC – Há uma carência grande por palcos no Brasil, sim?
MARISA –
Tá difícil criar casas de espetáculo no Brasil todo. Entrou a TV a cabo, a internet, etc, os cinemas estão acabando. Faltam investimentos na área. Investimentos privados é que nos salvam, se não fosse esse tipo de iniciativa privada, que abre agora (o teatro Rio Mar)... é o que permite que a gente tenha teatro e o teatro seja um bom negócio, com técnicos pagos com dignidade, público bem tratado. Vemos teatro ruim com preço alto, por aí, então, pobre público.

JC - Como baratear o preço dos ingressos no Brasil?
MARISA -
Falta tirar o crime da meia entrada. Hoje, o artista é que tem que pagar ao produtor. A bilheteria não se paga. No início da minha carreira, ficávamos em cartaz dee quarta a domingo. Isso dava pra baratear. Hoje, se muito, é de sexta a domingo. Sem falar na infra-estrutura das cidades. Com o trânisto, ninguém chega mais numa sessão de teatro na sexta-feira, às 21h. Eu vi trânsito até em Brasília, coisa que eu cahei que nunca ia ver. É muito pouco investimento em estrtura no País. Mas, enfim, quem sou eu pra falar de política?.

JC – Você não sabe quanto tempo fica na peça..tá engatilhando algum projeto?
MARISA –
Vou fazer uma série de 12 programas para o Canal Brasil, com a Tatiana Issa, a mesma que fez o documentário do Dzi Croques. Fizeram séries interessantes. Fizeram a Gaby Amarantos Gringa, a Ingrid Guimarães num programa sobre consumo em Nova Iorque. Vou fazer 12 programas sobre música, com teconbrega, punk, o que a gente chama de punk hoje, música performática dos anos 80, música de primeiro beijo... É baseado na minha música e no meu não comprometimento específico com nenhuma musica. Bolo um arranjo e mostramos o que faz uma música ser punk, brega, rock n´ roll. Vai se chamar Almanque Musical com Marisa Orth.

JC – Nos anos 1990, você foi uma das pioneiras, com a banda Vexame, em levar a chamada música brega para ambientes e públicos que antes a rejeitavam. Em cidades como o Recife, as classes média e alta consomem com volúpia a música dos surbúrbios e das periferias. A fronteira está sendo diluída?
MARISA -
Tinha uma brincadeira da Maralu (a vocalista pernosagem interpretada por Marisa Orth), que era sobre a MBPBP, Música Bem Popular Bem Braseira. Na minha adolescência, o que se chamava de brega era musica de empregada, hoje, nem tem mais empregada, a classe média tá sendo obrigada a botar a mão na massa, a arrumar a própria casa. Eu fui criada durante a ditadura, meus pais muito engajados, na sala se ouvia Geraldo Vandré, a música, enfim, que existia para salvar os pobres. Enquanto isso, os pobres não ouviam a música que era para salvar a vida deles. Eu vivi um momento muito rico musicalmente no Basil. Tanto na MPB, quanto na música brega, de um povo que pouco sabia se a vida era ditadura, porque a vida continua dura. Estamos saindo ainda da ditadura. Então, eu entendi que o processo de sair da ditaduta tem a ver com diminuir a distribuição de renda e de cultura. Por que tem um tipo de música que só quem faz faculdade gosta e quem não faz gosta de outra. Eu gosto.

JC – Você escuta essa chamada música brega contemporânea?
MARISA
- Gosto dos paraenses, do brega com guitarrada. A mÚsica de Chico Sciense, por exemplo, é uma música brega, um rock brega popular brasileira. Gosto muito da Karina Buhr, aquela sombra verde que ela usa é muito rock, mas é muito brega (risos). Tudo isso incorpora a música brega, que é música de pobre, nós somos um país ainda pobre. Gosto de funk carioca. O Odair José me deu uma definição ótima do brega: bregas são todos os cantores do Brasil que tentaram imitar o Roberto Carlos. O ReginaldoRossi era genial, com aquela vozinha. Mas ele deu um grande regionalismo a tudo.

JC – A banda Vexame volta?
MARISA
– Sim, vou fazer um disco que é nós. Mas meu trabalho musical hoje é o Romance - Volume 3. Já fiz o show num pub de Recife. Tem um fio dramatúrgico, com romance, dor de cotovelo, etc. As canções vão se ressignificando no repertório.

Serviços

O que o mordomo viu, com Miguel Falabella, Marisa Orth e grande elenco. No Teatro RioMar: 4º piso do Shopping RioMar, ao lado do cinema. Classificação: 14 anos. Informações: 3207-1144. Ingressos: plateia, R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia-entrada); balcão: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada).

Palavras-chave

  • Marisa Orth
  • Miguel Falabella
Autor: Vinculado ao jconline.ne10.uol.cultura


 
 
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